A escolha de um smartphone para a baixa-visão – artigo de João Pimpão

João Pimpão – Tem deficiência visual, é licenciado em Bioquímica, pela Universidade Nova de Lisboa, bem como mestre em Comunicação de Ciência pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), da mesma universidade, sendo que este mestrado teve como foco em todos os seus trabalhos a acessibilidade na comunicação de Ciência.

João Pimpão é mestre em Comunicação de Ciência

A tecnologia móvel, desde o seu aparecimento tem facilitado muito a inclusão de pessoas com deficiência visual, principalmente, desde o aparecimento dos smartphones.

Com o seu desenvolvimento, foram criadas inúmeras funcionalidades e aplicações, que podem facilitar o dia-a-dia de pessoas com baixa-visão, seja no uso dos próprios dispositivos, seja em outras tarefas. Nesta parte do artigo, falaremos da escolha de smartphones, Apps e funcionalidades úteis, bem como o futuro da utilização destes dispositivos.

Com tanta variedade de smartphones, a escolha do dispositivo ideal para cada pessoa tornou-se cada vez mais complicada. Um smartphone, para quem tem baixa-visão, não deve ser considerado  um mero dispositivo como é para qualquer outra pessoa, mas sim, uma ferramenta, e um investimento a médio prazo, que pode ajudar bastante na vida diária.

Para escolher um bom smartphone, devemos olhar, em primeiro lugar, para o tamanho e tipo de ecrã, bem como a sua resolução, pois é a principal forma de interação que temos com o aparelho. Em seguida, o processador é a parte mais importante, pois influencia todas as características restantes, como por exemplo, as câmaras, que influenciam na qualidade da ampliação feita pelo dispositivo, através de apps que falaremos mais a diante. 

Para a baixa-visão, um ecrã grande é importante, mas temos de ter em atenção o quão confortável é para o utilizador de o manusear, ou seja, deve haver um balanço entre tamanho, conforto, e segurança ao mexer no dispositivo.

Na atualidade, existem dois tipos de ecrã principais nos smartphones, LCD, e OLED, sendo que o OLED/AMOLED, tem melhores cores, um contraste mais elevado, e um preto mais profundo do que o LCD, uma vez que o OLED é composto por pixels individuais, que se auto-iluminam, enquanto que os ecrãs LCD possuem um painel de LEDs no fundo, e uma camada de cristais líquidos que deixam passar, ou não, a luz para formar as diferentes cores. Sendo assim, os painéis OLED são os melhores para a baixa-visão.

Quando falamos da resolução, quanto maior for, melhor, pois ao ampliar uma imagem no ecrã, maior detalhe será possível visualizar. Na atualidade, a maioria dos aparelhos tem resolução FullHD+, ou seja, um pouco acima do FullHD (1920×1080 pixels).

Em relação ao processador, este vai influenciar todas as funcionalidades que um smartphone pode ter no momento, ou vir a receber, ou seja, quanto melhor for o processador, mais funcionalidades terá a capacidade de utilizar desde o seu lançamento, e no futuro, sendo por isso recomendado processadores de gama média, no mínimo, não devemos pensar em “o que eu preciso agora”, mas sim, “o que posso precisar no futuro”, sendo que cada vez as aplicações estão mais pesadas, ainda mis com a chegada da inteligência artificial aos smartphones, e sabendo que nem sempre podemos estar dependentes de uma ligação estável à internet, dependendo assim de um processamento local. Na atualidade, para uma melhor experiência no futuro, os smartphones devem de ter entre 6GB e 8GB de RAM, idealmente 8.

As câmaras, também são uma parte importante, pois em conjunto com o processador vão permitir uma melhor imagem em aplicações de fotografia, de reconhecimento de ambiente, ou de ampliação. A fotografia, a pesar do que a maioria das pessoas pensa, é extremamente importante para quem tem baixa-visão, pois permite, em muitos casos, que o indivíduo veja através do ecrã do smartphone aquilo que não consegue ver a olho nu.

Também as funcionalidades de acessibilidade que estão disponíveis logo ao tirar da caixa, em termos de acessibilidade, devem ser consideradas, ou seja, as funcionalidades que já podem ser usadas, desde a configuração inicial, não sendo assim necessário que alguém configure o dispositivo para a pessoa que o vai utilizar, nem instalar muitas aplicações externas. Por exemplo, no iOS, o VoiceOver, (leitor de ecrã), pode ser ligado desde a primeira configuração, dando assim mais independência aos utilizadores com deficiência visual.

No Android, os smartphones, que seriam os mais indicados, por já terem alguma acessibilidade instalada são os Samsung, e os Google Pixel. O iPhone, por outro lado já tem a maioria das funcionalidades de acessibilidade pré-instaladas.

Aplicações para a baixa-visão

Ao longo dos anos, com o desenvolvimento dos dispositivos móveis, têm sido desenvolvidas diversas aplicações úteis para a deficiência visual. Estas aplicações podem ter diversas funcionalidades, desde ampliação com diferentes contrastes, até reconhecimento de ambiente, de texto, imagens, moedas, entre outras.

1 Seeing AI: App da Microsoft, com múltiplas funcionalidades, como reconhecimento de imagens, texto, moedas, entre outras.

Links para Download:

Android

iOS

Oko App: Uma aplicação que faz leitura de semáforos, e que possui também mapas. Esta aplicação ainda não está disponível em Portugal, mas será lançada em Janeiro de 2025. A aplicação ganhou este ano um apple Design Award, na categoria de Acessibilidade.

Website

Google Lookout: Aplicação da própria Google, que faz reconhecimento de ambientes, produtos, entre outras coisas. É de frisar, que esta aplicação está muito dependente de uma conexão com a internet, para ter todas as funcionalidades.

Link para download:

https://play.google.com/store/apps/details?id=com.google.android.apps.accessibility.reveal&hl=en_US

Be My Eyes: Uma aplicação que permite que indivíduos cegos, e com baixa-visão entrem em contacto com voluntários, que os ajudam a ver o que for necessário. Esta aplicação, tem ainda integração com o ChatGPT, para descrição de imagens. Esta aplicação está disponível para Android e iOS.

Links para Download:

Android

iOS

BlindSquare: Uma app de GPS desenvolvida especificamente para pessoas com deficiência visual, que usa apenas voz e texto para orientar. A aplicação é paga, custando, em Portugal 44,99 euros.

Links para download:

iOS

VoiceVista: O app aproveita a avançada tecnologia de áudio iOS e serviços de localização precisos para capacitar os indivíduos a desenvolver uma percepção mais elevada de seu ambiente. Ele oferece segurança em ambientes desconhecidos, ajudando os usuários a formar mapas mentais e navegar com confiança pelas rotas desejadas. Este app tem uma interface bastante simples, para facilitar a utilização de pessoas que usam leitores de ecrã, ou lupa.

Links para Download:

iOS

O futuro de utilização de smartphones para a baixa-visão

Para indivíduos com baixa-visão, os smartphones têm tomado cada vez um maior espaço nas suas vidas, mas ainda poderão ser mais úteis, com o desenvolvimento de novas como a inteligência artificial.

Com os desenvolvimentos mais recentes, em hardware, os smartphones estão cada vez mais potentes e mais preparados para a “Era da Inteligência Artificial”, que já está a ser incorporada em muitos dispositivos, principalmente os topo de gama, uma vez que são os mais potentes na atualidade, e que vão proporcionar uma melhor experiência ao utilizador, pois não vão apresentar qualquer problema ao executar este tipo de tarefas mais exigentes. Mesmo assim, na atualidade, muitas tarefas de IA ainda são executadas na nuvem, ou seja em servidores, fazendo assim com que o utilizador seja obrigado a estar sempre ligado à internet, o que para a área da acessibilidade, não considero o ideal, uma vez que nem todas as pessoas têm pacotes de dados grandes, e geralmente este tipo de tarefa consome uma quantidade de dados considerável, e nem sempre podemos estar conectados, por exemplo quando estamos em uma região com uma cobertura de sinal fraca.

Logo, futuramente, teremos mais capacidade de processar inteligência artificial nos smartphones, sendo que as aplicações especializadas também devem tirar mais proveito deste processamento local, no dispositivo, sendo uma das partes mais importantes, que teremos de olhar quando estivermos a escolher um telefone novo.

Mais a diante, os smartphones passarão a ser, muito provavelmente apenas centrais de processamento para óculos, (o mais próximo disso que temos hoje em dia, são os Apple Vision Pro, ou os Meta Quest), que poderão ter funcionalidades de realidade misturada, ou seja, poderão projetar elementos com contraste no campo de visão dos utilizadores, por exemplo para lhes indicar uma direção, sem o utilizador ter de necessariamente parar, e olhar de perto para o smartphone. Estes óculos, através de altifalantes e câmaras, poderão ainda, em conjunto com os smartphones detectar, por exemplo os semáforos, e indicar por voz, ou de forma visual se podemos atravessar, ou não, assim como já é feito hoje apenas com o smartphone, mas com o utilizador tendo de o apontar para o local correto.

Para concluir esta parte, os dispositivos móveis, serão cada vez mais úteis para pessoas com baixa-visão, sendo necessário cada vez mais aprender a tirar todo o proveito destes aparelhos tão úteis.

Os dispositivos dobráveis também fazem parte do futuro, uma vez que vão permitir termos dispositivos com ecrãs maiores, mas que se poderão dobrar e serem guardados facilmente em um bolso, ou em uma mala. No entanto, na atualidade, ainda são um pouco frágeis, para os considerar para quem tem baixa-visão, uma vez que pode acontecer algum objeto ficar no ecrã, e ao dobrarmos, este partir-se, uma vez que tem apenas uma fina película por cima do painel OLED, ou então, entrar alguma areia para a dobradiça, e esta estragar-se. Para além disso, na maioria destes dispositivos, ao fim de um ano, a película que protege o painel começa a descolar-se do centro, sendo necessário trocá-la.

Com isto, estes dispositivos poderão vir a ser muito úteis para a baixa-visão, no futuro, mas ainda não os considero adequados para quem tem algum tipo de problema de visão, pelas questões que mencionei acima.

Este artigo pode ser lido também na Magazine da NF Patients United