APNF Entrevista: “Os portadores de NF e seus familiares são das pessoas mais resilientes que conheci” – Prof.ª Elsa Canelo

Ao longo de três anos lectivos – 2021/22, 2023/24 e 2024/25 –, a professora Elsa Canelo coordenou e dinamizou a Linha de Apoio de Educação da APNF, acompanhando crianças e jovens com Neurofibromatose, e respectivas famílias. Em entrevista, partilha a sua visão sobre o impacto deste trabalho e o que leva desta experiência.

“O balanço é muito positivo. Aprendi imenso e evoluí enquanto pessoa e profissional”, realça, referindo: “Não conhecia a doença, nem as implicações que tem na aprendizagem das crianças e dos jovens.”

Nesta entrevista à APNF, Elsa Canelo fala-nos do crescimento do projecto, da importância de sensibilizar professores e da forma como parcerias, como a estabelecida com a Cães&Livros, contribuíram para transformar a experiência de aprendizagem de muitas crianças e jovens.

“A presença do cão altera a percepção da criança em relação ao adulto que a acompanha – torna o ambiente mais seguro, menos julgador e mais motivador”, salienta.

A ligação com as escolas foi também um dos pilares fundamentais deste trabalho. Ao longo dos anos, o número de reuniões solicitadas pelos pais com os professores foi aumentando, permitindo criar pontes, esclarecer dúvidas e adaptar estratégias.

“Houve sempre muita receptividade por parte dos docentes. Mesmo quando nem todas as sugestões eram aplicadas, o facto de haver espaço para o diálogo e para o conhecimento da doença fez toda a diferença”, assinala.

Dirigindo-se à comunidade NF, a professora Elsa Canelo deixa uma mensagem de força, esperança e perseverança: “Nunca desistam dos vossos sonhos, porque eles são alcançáveis.”

Ao longo de vários anos, esteve ligada à Linha de Apoio de Educação da APNF. Que balanço faz desta experiência?

Faço um balanço muito positivo! Ao longo destes 3 anos aprendi imenso e evolui muito enquanto pessoa e profissional. Foi um grande desafio porque não conhecia a doença, nem as implicações que ela tem na aprendizagem das crianças e dos jovens. Saio desta experiência com um respeito enorme pelas famílias e pelos alunos. Se estas famílias e estes alunos superam as dificuldades com muito esforço e trabalho, os alunos ditos normofuncionais não deveriam refugiar-se em tantas desculpas para justificar que não conseguem ultrapassar as adversidades.

Saio desta experiência com um respeito enorme pelas famílias e pelos alunos com NF

O que a motivou, enquanto professora, a abraçar este desafio junto da comunidade NF?

O facto de poder trabalhar da forma que sempre defendi ser a correta, ou seja, que o ensino deve ser adequado ao ritmo e às dificuldades de cada um. Na APNF foi possível porque não tive de lidar com turmas enormes, mas penso que é para este tipo de ensino que nos deveríamos encaminhar, oferecendo aos professores as condições para o poder praticar, desde logo, turmas mais reduzidas, sobretudo no 1º ciclo, em que são ensinadas as áreas basilares, como a leitura, a escrita e o cálculo.

Durante os anos em que esteve na APNF, que mudanças notou no apoio prestado às crianças e jovens com NF em contexto escolar?

As diferenças que notei é que ao longo dos 3 anos, os pedidos dos pais para reunir-me com os professores foram crescendo. Com estas reuniões aumentou a quantidade de professores sensibilizados. Nelas informei-os acerca das dificuldades escolares que a doença provoca nas crianças e jovens e do esforço adicional que têm de fazer para atingir os mesmos resultados que os colegas. Houve sempre muita recetividade e espaço para acolher sugestões. O problema é que por vezes não eram implementadas na prática, mas no geral, o balanço é positivo.

“Ao longo dos 3 anos, os pedidos dos pais para reunir-me com os professores foram crescendo. Com estas reuniões aumentou a quantidade de professores sensibilizados”

Prof.ª Elsa Canelo com Cristina Lopes, da Cães&Livros, e a simpática Buddy

Qual a importância da colaboração com a Cães&Livros no apoio prestado?

Considerando que a aprendizagem da leitura é uma das áreas essenciais que se encontra comprometida com a doença, o apoio prestado pela Cães&Livros é muito importante, pois as crianças têm muito menos receio de expor as suas dificuldades na presença do cão. A aprendizagem da leitura envolve a ativação da parte cognitiva, mas também são ativados “mecanismos” psicológicos, como a motivação, por exemplo. O cão é o elemento motivador de uma sessão de leitura. Além disso, altera a perceção que a criança tem acerca do adulto que ali está presente, pois por norma, as crianças com dificuldades na aprendizagem da leitura têm receio de se expor perante o professor e os colegas, receando ser alvo de críticas ou gozo; é uma forma de proteger a sua autoestima. Com o cão, a figura do adulto parece ser apagada, ou alterada sendo possível que as crianças o encarem como mais amigável por estar com o cão, ou então percecionado como portador das características positivas do cão – não julgador, divertido, amigável. Além disso, o cão também atua como um escape para os momentos em que a capacidade de atenção/concentração se perde, e quando a criança retoma a leitura fá-lo com uma energia renovada.

“O apoio prestado pela Cães&Livros é muito importante, pois as crianças têm muito menos receio de expor as suas dificuldades na presença do cão”

Pode partilhar connosco alguma história ou situação que a tenha marcado particularmente ao longo destes anos?

Sim, o caso da criança mais nova que acompanhamos. Ficamos muito sensibilizadas quando logo após o término da segunda ou terceira sessão o menino não queria ir embora; chorava e chamava pela Buddy. Nessa altura, a Cristina até tinha de sair com ele e a mãe e acompanhá-los até ao carro deles! Criou uma ligação muito forte com a Buddy.

“Ficamos muito sensibilizadas quando logo após o término da segunda ou terceira sessão o menino não queria ir embora…”

Que conquistas considera mais relevantes neste período? E o que sente que ficou por alcançar?

As conquistas mais importantes creio que foi a adesão crescente de professores às sessões de sensibilização sobre a NF. Por alcançar o acompanhamento de mais crianças e jovens dispersos pelo país e que não sabemos onde estão. Se não se tornarem associados da APNF, e não pedirem a ajuda da linha de educação nunca saberemos onde estão.

De que forma esta experiência na APNF influenciou o seu percurso pessoal e profissional?

Do ponto de vista pessoal esta experiência foi muito enriquecedora, pois conheci crianças muito resilientes e famílias muito lutadoras. Aprendi que quase todos os obstáculos são transponíveis quando a força de vontade existe e que os nossos problemas são muito relativizáveis quando comparados com os destas crianças e famílias.

“Esta experiência foi muito enriquecedora, pois conheci crianças muito resilientes e famílias muito lutadoras”

Do ponto de vista profissional adquiri mais conhecimento que poderei aplicar junto de alunos com necessidades especiais e formas diferenciadas de me adaptar às necessidades deles.

Que relevância atribui a projetos como este para o sucesso educativo de crianças com doenças raras como a NF?

Na minha opinião, estes projetos são muito importantes para que exista alguém que faça a ponte entre as famílias e as escolas. As associações dedicadas a doenças, geralmente mais desconhecidas, são quem possui os conhecimentos acerca das dificuldades e quem poderá ajudar as famílias no contacto com as escolas, no que se refere aos documentos necessários ao enquadramento legal das necessidades especiais; por outro lado também contribuem para que os professores conheçam as doenças e para lhes proporcionar algumas pistas sobre estratégias que poderão adotar com esses alunos. Esta articulação é essencial para o sucesso escolar.

Que mensagem gostaria de deixar à comunidade NF – pais, professores, técnicos e, sobretudo, às crianças e jovens?

A mensagem seria: Não deixem que a NF vos defina, ou que vos julguem devido a ela. Os portadores de NF e os seus familiares são das pessoas mais resilientes que já conheci. Nunca desistam dos vossos sonhos porque eles são alcançáveis, ainda que para os concretizar sejam necessárias adaptações.

Os portadores de NF e os seus familiares são das pessoas mais resilientes que já conheci. Nunca desistam dos vossos sonhos porque eles são alcançáveis”

Por: Rui Vieira