Jovem biólogo português faz dissertação de Mestrado sobre Neurofibromatose
“Entusiasta pela ciência e pelo desconhecido”.
Assim se define Francisco Moreira Ribeiro, 23 anos, Mestre em Biologia Celular e Molecular pela Universidade de Coimbra.
“Desde sempre tenho interesse por conhecer o mecanismo, a razão por de trás de cada acontecimento. Basta olhar para as estrelas à noite para perceber a imensidão de desconhecido incompreendido”, começa por salientar, em entrevista à APNF.
Fascínio que acabaria por determinar as coordenadas do seu percurso académico.
“Quando, no Secundário, tive de escolher a área de Ciências e Tecnologias não tive grandes dúvidas de que esta era a escolha acertada”
“Quando, no Secundário, tive de escolher a área de Ciências e Tecnologias não tive grandes dúvidas de que esta era a escolha acertada. De seguida, escolhi a licenciatura em Biologia pois conjugava os meus interesses a nível científico e uma formação de largo espectro que me permitiu conhecer as várias áreas do estudo da vida”, explica Francisco, natural do Porto mas a residir em Leiria, acrescentando: “O meu interesse especial pelo estudo do comportamento e como este pode ser associado aos circuitos neuronais conduziu-me a enveredar pelo Mestrado em Biologia Celular e Molecular com especialização em Neurobiologia”.
No passado mês de Setembro, Francisco defendeu a sua dissertação de Mestrado, intitulada ‘Visual cortical plasticity in neurofibromatosis type 1’.

Impunha-se a questão: como e quando surgiu o interesse na Neurofibromatose?
“Tive conhecimento da Neurofibromatose devido ao modelo animal com que contactei tanto no meu projecto em Biologia Aplicada na licenciatura, como durante a realização da minha dissertação de mestrado”, assinala em alusão ao murganho, uma espécie de pequeno roedor.
“Desenvolvi ambos os projectos no Coimbra Institute for Biomedical Imaging and Translational Research (CIBIT). Este animal modelo que estudamos de Neurofibromatose tipo 1 (NF1) é utilizado de maneira a compreender as perturbações do espectro do autismo. Este modelo de ratinho é interessante, pois uma mutação no gene NF1 está associada a características cognitivo-comportamentais apresentadas nestas perturbações”, detalha.

Francisco Ribeiro explica, então, o que o levou a escolher a Neurofibromatose como tema para a tese de Mestrado.
“Fiz mestrado nesta área da Neurofibromatose de maneira a avaliar se o cérebro destes ratinhos com mutação era menos plástico a experiências visuais do que o cérebro de ratinhos saudáveis”
“Fiz mestrado nesta área da Neurofibromatose de maneira a estudar aspectos de plasticidade sináptica neste modelo animal. Por outras palavras, avaliar se o cérebro destes ratinhos com mutação era menos plástico a experiências visuais do que o cérebro de ratinhos saudáveis”, refere, na entrevista que concedeu à APNF.
A investigação que levou a cabo “consistiu em caracterizar neste modelo animal de NF1 possíveis defeitos de plasticidade sináptica em córtex visual.”
“O nosso objectivo era estudar esta plasticidade num modelo animal de autismo, neste caso de NF1. Para tal, foram aplicados protocolos comportamentais e electrofisiologia para avaliar as respostas eléctricas desta região cortical. Através de testes de comportamento e da colocação de eléctrodos no córtex visual, pretendi distinguir se os ‘ratinhos autistas’ distinguiam de forma diferente estímulos visuais familiares e novos comparando com ratinhos saudáveis”, elucida Francisco.
“Paralelamente, também desenvolvi experiências no sentido de identificar as regiões mais activadas num contexto social nestes ‘ratinhos autistas’ comparando com ratinhos saudáveis”, anota, realçando a necessidade de o “trabalho ser continuado de maneira a aumentar a robustez dos dados” recolhidos.
“Quero dar continuidade à investigação no âmbito da Neurofibromatose enquanto modelo de neuro desenvolvimento para estudar as perturbações do espectro do autismo.”
De olhos postos no futuro, este jovem biólogo, “com interesses variados mas com gosto especial pelas áreas artísticas associadas à criatividade ou modalidades como o ténis ou o padel”, pretende “dar continuidade à investigação no âmbito da Neurofibromatose enquanto modelo de neuro desenvolvimento para estudar as perturbações do espectro do autismo.”

“A associação de autismo a NF1 deve-se ao facto de esta doença apresentar um conjunto de características cognitivas semelhantes ao autismo (idiopático) – alterações na percepção visual, no domínio motor e da linguagem, afectação da memória ou atrasos em etapas do neurodesenvolvimento, tornando-a um bom e fácil modelo para estudar autismo”, sublinha.
O percurso profissional, projecta, será trilhado no País que o viu nascer, mas também além-fronteiras.
“Perspectivo a minha carreira em Portugal com experiências internacionais enriquecedoras. Espero também que Portugal possa fazer um caminho de melhoria da carreira científica. Haja vontade política para tal”, deseja Francisco, que, de entre todos os valores que lhe foram transmitidos no seio familiar, destaca o “espírito crítico” como um dos mais importantes.
Por: Rui Vieira
