APNF Entrevista: Dra. Leonor Salicio, médica pediatra no Hospital da Guarda
Entrevista à Dra. Leonor Salicio
Médica Pediatra no Hospital Sousa Martins – Unidade Local de Saúde da Guarda
Nasceu em Espanha. O que a trouxe até Portugal?
Terminei o curso de Medicina em Salamanca (minha cidade natal) em 2005. Na altura, em Espanha, a situação com os médicos residentes era muito má, não só em termos económicos/laborais, como também com a possibilidade de ter vaga de especialidade no exame nacional MIR (Médico Interno Residente). Desde o meu 2.º ano de Medicina comecei a estudar Português na Escola Oficial de Línguas, pelo que completei o 5.º ano antes de vir para cá (o equivalente ao nível C2 em Português). O meu pai é de uma terra da fronteira e conhecia Portugal, e sempre gostei muito deste país. Infelizmente, também aconteceu outro percalço: em 23 de Setembro de 2005 fui atropelada numa passadeira e não tive muito tempo para poder preparar o temário espanhol do exame MIR, pelo que decidi dedicar-me exclusivamente ao temário português.
“Quando entrei na Faculdade, [a Pediatria] não era a especialidade que queria fazer, mas ao longo dos anos comecei a gostar muito, sobretudo daquelas crianças com dificuldades.“
Porquê a Pediatria?
Quando entrei na Faculdade não era a especialidade que queria fazer, mas ao longo dos anos comecei a gostar muito e sobretudo daquelas crianças com dificuldades. Achei que poderia fazer alguma coisa para as poder ajudar. Durante a Faculdade fui voluntária em ASPRODES (o equivalente às CERCI portuguesas) e foi aí que encontrei a minha vocação.

no Hospital da Guarda
Em que instituições de saúde já trabalhou no nosso País?
Fui interna do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio (na altura chamava-se assim), em Portimão, o nos últimos anos da especialidade temos de ir para Hospitais Centrais para fazer a nossa especialização. Já estive no Hospital de Santa Maria, Hospital Pedro Hispano de Matosinhos, Maria Pia, Santo António, Hospital de Gaia. Também durante a especialidade trabalhei como “tarefeira” em vários hospitais do Norte. Também fiz a pós-graduação em Neurodesenvolvimento na Faculdade de Medicina de Lisboa e realizei estágio de duas semanas no Centro Diferenças de Lisboa com o insigne Pediatra Miguel Palha.
“Esta consulta [de Desenvolvimento] visa acompanhar e ajudar, sobretudo, nos problemas de aprendizagem e do comportamento frequentes na NF”
Além do Hospital Sousa Martins – Unidade Local de Saúde da Guarda, exerce em mais algum local?
Não tenho dedicação exclusiva, pelo que faço consultas de Pediatria Geral numa Clínica da Guarda e também no Espaço 5 Sentidos da Guarda, onde faço consultas de Desenvolvimento. Esta consulta visa acompanhar e ajudar, sobretudo, nos problemas de aprendizagem e do comportamento frequentes na NF; o mais frequente deles a síndrome de défice de atenção e hiperactividade.
No caso concreto da Neurofibromatose, quantos pacientes acompanha neste momento? Todos com NF1 ou segue pacientes com Schwannomatose relacionada ao gene NF2 ou Schwannomatose?
Acompanho poucos, uns 3 ou 4, porque a área de abrangência do nosso hospital corresponde a áreas desertificadas do interior de Portugal com escassa população pediátrica – e tendo em conta a prevalência da doença, por estatística, não encontraremos um grande número –, e a nossa é uma consulta geral, não é uma consulta especializada e abrangemos muitos diagnósticos diferentes. Tenho outras colegas que fazem a mesma consulta e devemos ter um número parecido de doentes cada uma. Todos os que tenho correspondem ao tipo 1.
“Trabalho no Hospital da Guarda há 12 anos, pelo que os bebés cresceram e já são adolescentes, desde que foram diagnosticados”
Qual a faixa etária dos seus pacientes com NF?
Já trabalho no Hospital da Guarda há 12 anos, pelo que os bebés cresceram e já são adolescentes, desde que foram diagnosticados. Vemos doentes de poucos meses até aos 18 anos (os mais novos, porque os pais também têm NF e já vêm com o diagnóstico genético), os casos de “novo”, quando começam a aparecer as manchas café au lait, na primeira infância.
Recorda-se do primeiro caso de NF que acompanhou?
Sim, agora é um adolescente, com alguns problemas de aprendizagem, comportamento e epilepsia controlados com medicação. Vive na zona afastada da Guarda e tem tido problemas para se deslocar às consultas, sobretudo a Coimbra (para Neuropediatria, Oftalmologia, …). Mas está bem integrado e faz uma vida completamente normal para a sua idade.
“Temos consulta de Neurologia no Hospital da Guarda, para onde encaminhamos os nossos doentes quando são adultos, mas depois perdemos um pouco a pista deles”
Tem conhecimento de adultos portadores de NF nas instituições de saúde onde trabalha? Que tipo de acompanhamento lhes é proporcionado?
Sim, a mãe de outra minha paciente. Desconheço o acompanhamento pormenorizadamente. Temos consulta de Neurologia no Hospital da Guarda, para onde encaminhamos os nossos doentes quando são adultos, mas depois perdemos um pouco a pista deles.
Os pacientes com NF, quer sejam crianças, jovens ou adultos, têm acesso a um acompanhamento multidisciplinar? Existe um trabalho em rede entre clínicos de várias especialidades na sua região?
Eu encaminho para o meu Hospital de referência, que é o Pediátrico de Coimbra, para as diferentes consultas (Neuropediatria, Oftalmologia, Genética…) ou outras especialidades, consoante a evolução dos pacientes. Mas não é um trabalho realmente em equipa ou 100% protocolado.

Tem conhecimento de algum tipo de apoio para as deslocações dos pacientes?
Para ter direito a transporte tem de se cumprir 2 requisitos: primeiro é insuficiência económica; segundo é incapacidade superior a 60% em junta médica. Mesmo que com toda a nossa boa vontade façamos o pedido de transporte, pode ser negado pelos nossos superiores se não se cumprirem esses dois requisitos.
“Sem dúvida que há dificuldades acrescidas no interior do País. Temos poucos médicos, poucos especialistas em algumas áreas…”
Sente que por residirem no interior do País as dificuldades são acrescidas para os pacientes com NF? E para os clínicos que os acompanham?
Sim, sem dúvida nenhuma. Temos poucos médicos, poucos especialistas nalgumas áreas e Coimbra está longe da Guarda, mas mais longe está dos nossos doentes dos concelhos mais longínquos como Figueira de Castelo Rodrigo, Vila Nova de Foz Côa…
Na sua opinião, o que poderá ser feito para melhorar a qualidade do acompanhamento às pessoas com NF, não só no interior do País como a nível nacional?
Um protocolo de diagnóstico, seguimento e tratamento. Grupos de trabalho transdisciplinares com reuniões, formações, discussões de dúvidas e maior facilidade para contactarmos com outros colegas em caso de dúvida ou urgência.
Acompanha o trabalho desenvolvido pela Associação Portuguesa de Neurofibromatose?
Tenho de dizer a verdade: desde que os conheci, tenho ido visitar o vosso site muito de vez em quando, o tempo não é muito e como disse no início da entrevista, temos muitas patologias para abranger. Mas gostaria de aprender muito mais e poder ajudar melhor os meus doentes.
“Há pacientes que já conheciam a APNF e fiquei contente por isso”
Percebe, nas suas consultas, se os pacientes têm conhecimento da Associação?
Sim, há pacientes que já conheciam a associação e fiquei contente por isso.
Por: Rui Vieira
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